que diz for verdade,
então o próprio rei terá de ouvir.
- E que provas lhe apresentaremos? As minhas palavras
contra as deles? Os meus passarinhos contra a rainha e o
Regicida, contra os irmãos e o conselho do rei, contra os
Guardiães do Leste e do Oeste, contra todo o poderio de
Rochedo Casterly? Rogo-lhe, mande buscar diretamente Sor
Ilyn, pois nos poupará tempo. Sei onde termina essa estrada.
- Mas se o que diz for verdade, eles se limitarão a esperar seu
tempo e farão outra tentativa.
- Certamente farão - Varys confirmou. - E temo que o façam
mais cedo que tarde. O senhor os está deixando muito
ansiosos, Lorde Eddard. Mas meus passarinhos estarão à
escuta, e em conjunto, o senhor e eu, talvez sejamos capazes
de nos adiantarmos a eles - pôs-se em pé e puxou o capuz até
voltar a esconder o rosto. - Agradeço-lhe o vinho. Voltaremos
a conversar. Quando voltar a me ver no conselho, assegure-se
de me tratar com o desprezo habitual. Não deverá achar
difícil.
O eunuco já se encontrava junto à porta quando Ned o
chamou:
- Varys — o homem encapuzado virou-se. - Como morreu Jon
Arryn?
- Perguntava a mim próprio quando chegaria a esse ponto.
- Diga-me.
- Chamam-lhe lágrimas de Lys, Coisa rara e dispendiosa,
límpida e doce como a água, e não deixa rastro algum.
Supliquei a Lorde Arryn que usasse um provador, foi nesta
mesma sala que lhe supliquei, mas ele não queria ouvir falar
do assunto. Só alguém que fosse menos que um homem podia
sequer pensar em tal coisa, ele me disse.
Ned tinha de saber o resto.
- Quem lhe deu o veneno?
- Algum amigo querido, sem dúvida, alguém que partilhasse
com frequência comida e bebida com ele. Ah, mas qual?
Havia muitos assim. Lorde Arryn era um homem bondoso e
confiante -o eunuco suspirou. - Mas havia um rapaz. Tudo o
que era devia a Jon Arryn, mas quando a viúva fugiu para o
Ninho da Águia com os seus, ficou em Porto Real e
prosperou. Alegra-me sempre o coração ver os jovens subir
neste mundo - o chicote estava de novo em sua voz; cada
palavra era uma chicotada. - Deve ter feito uma figura
galante no torneio, em sua brilhante armadura nova, com
aqueles crescentes no manto, Uma pena que tenha morrido
tão intempestivamente, antes que o senhor tivesse
possibilidade de falar com ele...
Ned sentiu-se quase como se ele próprio tivesse sido
envenenado.
- O escudeiro - ele exclamou. - Sor Hugh - rodas dentro de
rodas dentro de rodas. A cabeça de Ned latejava. - Por quê?
Por quê agora? Jon Arryn foi Mão durante catorze anos. Que
andava fazendo ele para que tivessem de matá-lo?
- Andava fazendo perguntas - respondeu Varys, esgueirando-
se porta afora.

Tyrion

Em pé, no frio de antes da alvorada, observando Chiggen, que
matava seu cavalo, Tyrion Lannister tomou nota de mais
uma dívida para os Stark. Viu-se um vapor subir de dentro da
carcaça quando o mercenário acocorado abriu a barriga com
sua faca de esfolar. Movia as mãos com habilidade, sem
desperdiçar um único golpe; o trabalho tinha de ser feito
rapidamente, antes que o fedor do sangue trouxesse gatos-
das-sombras das colinas.
- Nenhum de nós passará fome esta noite - disse Bronn. Ele
próprio era quase uma sombra; magro e duro como um osso,
com olhos negros, cabelos negros e barba por fazer.
- Alguns de nós talvez passem - disse-lhe Tyrion. - Não me
agrada comer cavalo. Especialmente o meu cavalo.
- Carne é carne - disse Bronn, encolhendo os ombros. - Os
dothrakis gostam mais de cavalo que de vaca ou porco.
- Toma-me por um dothraki? - perguntou Tyrion em tom
irritado. Os dothrakis comiam cavalo, era verdade; também
deixavam crianças deformadas para os cães selvagens que
corriam atrás dos seus khalasares. Pouco apreço sentia pelos
costumes dothrakis.
Chiggen cortou uma fina fatia de carne sangrenta da carcaça
e ergueu-a para inspeção.
- Quer provar, anão?
- Meu irmão Jaime me deu essa égua pelo vigésimo terceiro
dia do meu nome - Tyrion respondeu numa voz despida de
emoção.
- Então, agradeça-lhe em nosso nome. Se voltar a vê-lo -
Chiggen deu um sorriso, mostrando dentes amarelos, e
engoliu a carne crua em duas dentadas, - Tem sabor de égua
de boa criação.
- É melhor fritá-la com cebolas - interveio Bronn.
Sem uma palavra, Tyrion afastou-se coxeando. O frio
instalara-se profundamente em seus ossos, e tinha as pernas
tão doídas que quase não conseguia andar. Talvez a égua
morta fosse quem tinha mais sorte. Ele tinha perante si mais
horas a cavalo, seguidas por um pouco de comida e um curto
sono frio sobre solo duro, e depois outra noite igual, e outra, e
outra, e só os deuses sabiam quando aquilo terminaria.
- Maldita seja - resmungou enquanto lutava para avançar
pela estrada a fim de se juntar aos seus captores, remoendo
recordações -, maldita seja ela e todos os Stark.
A memória ainda lhe era amarga. Num momento
encomendava o jantar, e um piscar de olhos mais tarde
defrontava uma sala cheia de homens armados, com Jyck
levando a mão à espada e a estalajadeira gorda guinchando:
- Espadas, não, aqui, não, por favor, senhores.
Tyrion torcera 